Os ganhos de eficiência com IA já chegam a 59% das empresas portuguesas, mas quase ninguém sabe quanto isso vale em euros. Em julho de 2026, o grupo Conclusion divulgou o estudo Tech Reality Check 2026, feito em Portugal, Alemanha, Espanha e Países Baixos. O resultado mais citado foi este, 59% das organizações portuguesas afirmam já ter reduzido custos ou ganho eficiência com o uso de inteligência artificial, o valor mais alto entre os quatro países analisados. Portugal lidera esta tabela específica, à frente da Alemanha, da Espanha e dos Países Baixos.

À primeira vista parece uma boa notícia, e é. O problema aparece no resto do mesmo estudo. Apenas 47% das organizações portuguesas têm visão completa dos custos tecnológicos que suportam, apenas 46% conhecem verdadeiramente as dependências críticas da própria infraestrutura, e Portugal regista o valor mais baixo dos quatro países quando o tema é integrar riscos técnicos e legais nas decisões de investimento tecnológico, 32%.

Junte as duas metades do mesmo estudo e o retrato fica menos confortável. Mais de metade das empresas portuguesas diz que a IA está a poupar dinheiro, mas menos de metade sabe, com rigor, quanto gasta em tecnologia no total. É difícil confiar num “poupei dinheiro” quando não se sabe ao certo quanto se gastava antes, nem quanto se gasta agora.

O estudo não separa PME de grandes empresas nesta pergunta específica, e é importante dizê-lo com clareza em vez de esticar o dado além do que ele mostra. Ainda assim, o mecanismo que o estudo descreve, mais confiança do que controlo, tende a pesar mais numa empresa pequena do que numa grande. Uma grande empresa tem departamento financeiro, tem quem audite subscrições, tem margem de erro no orçamento. Uma PME da região Centro, muitas vezes, tem o próprio dono a decidir num intervalo entre duas reuniões, e ninguém a revisitar essa decisão passados três meses.

O que isto custa à PME, em euros e em horas

Passemos isto para a prática de uma PME normal em Aveiro, Coimbra ou Viseu. Imagine que a empresa decide experimentar duas ferramentas de inteligência artificial em paralelo, uma para responder a clientes, outra para gerar conteúdo de marketing. Ninguém na equipa é contra a experiência, o problema é que ninguém fica responsável por confirmar, depois, se está a resultar.

Se essa verificação, rever se a ferramenta poupou tempo de facto, comparar com o que se gastava antes, decidir manter ou cancelar, ocupasse por exemplo quatro horas por mês de alguém da equipa, e essas quatro horas nunca acontecessem porque “não há tempo para isso”, o custo não desaparece, apenas fica invisível. Ao custo médio da hora de trabalho em Portugal, 19,4 euros segundo os dados mais recentes do INE relativos a 2025, essas quatro horas mensais valem quase 78 euros só em análise que devia ter sido feita e não foi.

Isto sem contar com o valor das próprias subscrições. Duas ferramentas a 30 ou 40 euros por mês cada, mantidas “por precaução” durante seis meses sem que ninguém confirme se compensam, já representam 400 a 500 euros gastos às cegas, dinheiro real, saído da conta da empresa, sem uma única frase escrita que confirme que aquilo valeu a pena.

O risco maior não é a ferramenta ser má. A maioria das ferramentas de inteligência artificial hoje disponíveis cumpre razoavelmente aquilo a que se propõe. O risco está antes, na empresa nunca ter definido, antes de assinar, o que “valer a pena” significa em números concretos, e por isso nunca conseguir responder com factos, só com sensação, à pergunta mais simples de todas, isto está mesmo a poupar-nos tempo ou dinheiro.

O princípio geral por trás da solução

A correção para isto não exige mais tecnologia, exige uma disciplina simples de aplicar antes de qualquer subscrição nova. Antes de ativar uma ferramenta de inteligência artificial, escrever uma frase com um número dentro, por exemplo “esta ferramenta deve poupar-nos pelo menos três horas por semana no atendimento a clientes” ou “deve reduzir o tempo de resposta a orçamentos de dois dias para meio dia”.

Definir também, à partida, quando essa frase vai ser revista. Trinta ou sessenta dias depois de começar a usar a ferramenta costuma ser suficiente para ter dados reais em vez de impressões. Se, ao fim desse prazo, o número não se aproximou do que foi escrito, a decisão correta é cancelar ou mudar de ferramenta, não continuar “só mais um mês para ver”.

Isto transforma uma decisão de tecnologia, normalmente tratada como um ato de fé, diz-se que poupa, ouvi dizer que ajuda, numa decisão de gestão como outra qualquer, com um número de entrada, um prazo de revisão, e um número de saída. É a mesma disciplina que qualquer PME já aplica a uma campanha de publicidade ou a uma nova contratação. Falta apenas aplicá-la também à inteligência artificial.

O estudo da Conclusion mostra que Portugal está, em termos de perceção de ganhos, à frente de mercados como a Alemanha ou os Países Baixos. Vale a pena que essa vantagem não fique só na perceção. Uma empresa que meça o que a inteligência artificial realmente lhe dá, em vez de confiar apenas na sensação de que está a ajudar, sai à frente das que se limitam a seguir a tendência, seja qual for a dimensão dessa empresa.

Para aprofundar este tema, já escrevi sobre o fosso de adoção de IA nas PME portuguesas e sobre os riscos de IA na sombra que ninguém está a gerir.

Quantas empresas portuguesas já poupam dinheiro com inteligência artificial?

Segundo o estudo Tech Reality Check 2026 do grupo Conclusion, 59% das organizações portuguesas afirmam já ter reduzido custos ou ganho eficiência com o uso de inteligência artificial, a percentagem mais alta entre Portugal, Alemanha, Espanha e Países Baixos.

Porque é que muitas empresas não sabem se a IA está mesmo a poupar dinheiro?

Porque, segundo o mesmo estudo, apenas 47% das organizações portuguesas têm visão completa dos custos tecnológicos que suportam, o que torna difícil confirmar com rigor se uma ferramenta de IA está a gerar poupança real ou apenas a sensação de poupança.

Como pode uma PME medir se uma ferramenta de IA está a compensar?

Definindo, antes de a adotar, um número concreto de tempo ou dinheiro que espera poupar por semana ou por mês, e revendo esse número ao fim de 30 a 60 dias de uso real, cancelando ou substituindo a ferramenta se o resultado não se aproximar do previsto.