Segundo o Instituto Nacional de Estatística, apenas 9,4% das pequenas empresas portuguesas, entre 10 e 49 trabalhadores, utilizavam inteligência artificial nos seus processos em 2025. É uma subida de 2,7 pontos percentuais face a 2024, o que mostra que o crescimento existe, mas parte de uma base muito baixa. Nas médias empresas o valor sobe para 18,2%, nas grandes chega aos 49,1%. A taxa geral de adoção em Portugal, somando empresas de todas as dimensões, fica nos 11%.
Um estudo mais recente, feito pela FEP Junior Consulting para a MediaWeb e divulgado em maio de 2026, chega a um número ainda mais baixo quando o foco é só nas PME, 8,6% de adoção. O mesmo estudo perguntou às empresas que ainda não usam IA porque não usam, e a resposta mais comum não foi o preço. Foi o desconhecimento. Falta de literacia digital e desinformação sobre a tecnologia aparecem à frente do receio com o investimento necessário. Apenas 27,8% das empresas inquiridas, 111 em 400, dizem estar preparadas para investir em IA nos próximos 12 meses.
Este padrão repete-se quando se olha para a União Europeia. O relatório sobre o Estado da Década Digital, da Comissão Europeia, divulgado em 2026, situa Portugal nos 15% de adoção geral de IA nas empresas, contra 20% na média da UE, com uma meta de 75% de todas as empresas europeias até 2030. Nas PME especificamente, Portugal está nos 11,5% contra 20% na UE. O país não está apenas atrás, está a crescer a um ritmo que, mantido, dificilmente chega a essa meta.
Números de adoção são abstratos até se traduzirem em dinheiro. Vale a pena fazer as contas com um exemplo conservador e sem inventar nenhum estudo específico, usando apenas o custo médio do trabalho em Portugal, que o Eurostat fixou em 19,4 euros por hora em 2025, valor que inclui salário e encargos, e que fica bem abaixo da média da UE, de 34,9 euros.
Imagine-se uma PME onde uma pessoa em funções administrativas gasta seis horas por semana em tarefas repetitivas que já hoje têm alternativa simples de apoio de IA, responder a perguntas frequentes de clientes, preparar resumos de reuniões, rever texto, organizar informação recebida por email. Não é preciso eliminar essas seis horas, basta reduzi-las a metade para libertar três horas semanais. A 19,4 euros por hora, isso são cerca de 58 euros por semana, ou pouco mais de 250 euros por mês, só num posto de trabalho. Numa PME com cinco pessoas em funções administrativas ou de atendimento ao cliente, o mesmo cálculo aproxima-se dos 1.250 euros por mês, quase 15 mil euros por ano, em tempo que continua a ser gasto em tarefas que já não precisavam de ser inteiramente manuais.
Este não é um valor retirado de um estudo, é uma estimativa ilustrativa a partir de um custo horário real e de uma poupança de tempo modesta e plausível. O ponto não é o número exato, que varia de empresa para empresa e de setor para setor, é a ordem de grandeza. Uma PME da região Centro que adia esta conversa não está a evitar um custo, está a escolher pagá-lo todos os meses, só que sob a forma de tempo que ninguém regista numa fatura.
A resposta mais comum a este tipo de número costuma ser investir em IA, e é aqui que a maioria das PME tropeça. O próprio estudo da FEP Junior Consulting já o diz, o problema não é falta de dinheiro, é falta de informação sobre o que a tecnologia faz e onde encaixa no dia a dia da empresa. Investir sem perceber onde está o desperdício de tempo é como comprar uma máquina industrial sem saber qual é o gargalo da produção.
O princípio geral, válido para qualquer PME independentemente do setor, é começar pelo mapeamento, não pela ferramenta. Antes de decidir que sistema de IA comprar, vale a pena perguntar a cada área da empresa qual é a tarefa que se repete todas as semanas, que segue sempre o mesmo padrão, e que ainda é feita manualmente porque sempre foi assim. Essas tarefas repetitivas e previsíveis são normalmente onde a IA aplicada tem o retorno mais rápido, muitas vezes com ferramentas gratuitas ou de baixo custo, e não com projetos grandes de vários milhares de euros.
Depois do mapeamento, o segundo passo é testar em pequeno. Escolher uma única tarefa, medir quanto tempo demora hoje, testar uma ferramenta durante um mês, e medir de novo. Só depois de ver o resultado com números próprios é que faz sentido decidir se vale a pena alargar o uso a outras áreas da empresa. Este processo, mapear, testar, medir e só depois alargar, é mais lento do que comprar logo uma solução completa, mas é o que evita que uma PME entre para os 90% que continuam a ver a IA como algo distante, caro ou complicado, quando muitas vezes a barreira real nunca foi o preço.