Insolvências PME região Centro: os dados de 2026 desenham três trajetórias opostas entre Aveiro, Coimbra e Viseu, e a diferença importa para quem gere risco de crédito. Nos primeiros três meses de 2026, o número de processos de insolvência registados no distrito de Viseu subiu 69% face ao mesmo período de 2025, segundo o relatório Insight View da consultora Iberinform, citado pelo Jornal do Centro em maio deste ano. O mesmo relatório mostra que 86% das empresas do distrito são microempresas, 13% são pequenas empresas e apenas cerca de 1% chega à categoria de média ou grande empresa. No mesmo trimestre, a constituição de novas empresas caiu 16%. Os serviços concentram 40% da atividade económica do distrito, a indústria 13%, a agricultura 7%, os transportes 4% e a construção 2%, e quase um terço de todas as empresas está sediado no concelho de Viseu.
A cerca de oitenta quilómetros dali, em Aveiro, a fotografia é a oposta. O mesmo estudo da Iberinform, referente ao ano de 2025, regista uma queda de 12% nas insolvências face a 2024, um aumento de 2% na constituição de novas empresas e um crescimento de 130 milhões de euros no volume de negócios agregado do distrito, com a taxa de exportação a subir 0,2 pontos percentuais. Em Coimbra, dados da Allianz Trade publicados em agosto pelo Jornal Económico apontam para uma queda de 13,5% nas insolvências entre janeiro e julho de 2026, um dos recuos mais acentuados do país, num ano em que o total nacional de processos de insolvência subiu 3,4%, de 1.284 para 1.328 casos no mesmo período.
Três distritos que pertencem à mesma região NUTS II, e que são muitas vezes tratados como um bloco único em relatórios de mercado, planos de marketing e conversas de café, estão, ao mesmo tempo, a atravessar três ciclos económicos claramente diferentes. Isto tem uma implicação prática e pouco discutida nas PME da região, tratar “a região Centro” como uma unidade homogénea de decisão, seja comercial, seja de comunicação, é trabalhar com um mapa desatualizado antes mesmo de o abrir.
Esta divergência regional cruza-se com um segundo dado, de âmbito nacional, mas com peso direto no dia a dia de qualquer PME, seja em que distrito for. De acordo com o mais recente estudo da Informa D&B sobre comportamento de pagamentos das empresas em Portugal, com dados de maio de 2026, apenas 20,2% das empresas portuguesas pagam a fornecedores dentro do prazo acordado. A maioria, 65,2%, atrasa-se até 30 dias, 9% atrasa-se entre 30 e 90 dias, e cerca de 66 mil empresas, ou seja, 12% do universo com indicadores de pagamento avaliados, estão classificadas em risco médio-alto ou elevado de sofrerem atrasos graves, acima de 90 dias, nos próximos doze meses.
Para uma PME que fatura a clientes ou depende de fornecedores concentrados num distrito onde as insolvências estão a acelerar, como acontece em Viseu, este risco deixa de ser uma estatística distante e passa a ser um problema de fluxo de caixa concreto. Uma fatura de 5.000 euros que, em vez de ser paga a 30 dias, o é a 90, obriga a empresa a financiar esse valor durante dois meses adicionais, com capital próprio parado ou com uma linha de crédito, além do tempo gasto a negociar o pagamento, a acompanhar o processo e, no pior cenário, a substituir um cliente ou fornecedor que deixou simplesmente de existir. Nenhuma destas horas aparece discriminada em nenhuma fatura, mas saem todas da mesma conta, a do tempo do gestor, que numa microempresa é o recurso mais escasso e mais caro que existe.
Nas empresas mais pequenas, que representam a esmagadora maioria do tecido empresarial dos três distritos, este custo pesa proporcionalmente mais do que numa empresa de maior dimensão, precisamente porque há menos pessoas na equipa e menos margem para absorver a gestão de um incumprimento sem descurar outra área do negócio, seja a produção, o atendimento ou a angariação de novos clientes.
A conclusão prática não é que a região Centro esteja em crise, nem que esteja de boa saúde. É que não existe, hoje, uma resposta única e correta para essa pergunta, porque a resposta muda conforme o distrito, e por vezes conforme o concelho. Qualquer decisão de investimento, expansão, contratação ou definição de prazos de pagamento que assente na ideia de “a economia da região Centro está a fazer X” corre o risco de estar a aplicar a um negócio em Viseu uma leitura que só é válida para Aveiro, ou vice-versa.
Na prática, isto traduz-se em três hábitos simples, que qualquer PME consegue adotar sem grande investimento. Primeiro, monitorizar a saúde financeira de clientes e fornecedores por geografia, e não apenas por volume de faturação, porque uma carteira de clientes concentrada num único distrito herda automaticamente o risco desse distrito, para o bem e para o mal. Segundo, rever os prazos de pagamento praticados com cada cliente relevante de forma periódica, e não apenas uma vez por ano no fecho de contas, porque um atraso que se instala silenciosamente ao longo de vários meses é sempre mais difícil de negociar do que um atraso identificado logo nas primeiras semanas. Terceiro, evitar decisões de investimento, expansão ou contratação baseadas em generalizações sobre “a economia da região”, sem confirmar primeiro se o distrito ou o concelho específico confirmam essa generalização, porque, como os números acima mostram, a distância entre Aveiro e Viseu pode chegar a dezenas de pontos percentuais na mesma métrica, no mesmo trimestre.
Nenhuma destas três medidas exige um investimento significativo. Exige, sobretudo, substituir a intuição regional por dados atualizados e verificar essa fotografia com regularidade, porque, como ficou demonstrado nos últimos dois trimestres, a economia de cada distrito muda mais depressa do que a perceção que as PME costumam ter dela.
Este cenário de risco de crédito na região Centro cruza-se com dois temas que já explorei: quanto dos fundos aprovados no Portugal 2030 chegou às PME da região e o fosso de adoção de IA que ainda separa a maioria das PME portuguesas.
As insolvências de empresas estão a subir ou a descer na região Centro de Portugal?
Depende do distrito. Em Viseu, as insolvências subiram 69% no primeiro trimestre de 2026 face a 2025. Em Aveiro caíram 12% em 2025 e em Coimbra caíram 13,5% entre janeiro e julho de 2026, segundo dados da Iberinform e da Allianz Trade.
Que percentagem de empresas portuguesas paga fornecedores dentro do prazo acordado?
Apenas 20,2% das empresas portuguesas pagam a fornecedores dentro do prazo acordado, segundo o estudo da Informa D&B sobre comportamento de pagamentos, com dados de maio de 2026.
Que distrito da região Centro tem mais microempresas?
Em Viseu, 86% das empresas são microempresas e apenas cerca de 1% são médias ou grandes empresas, segundo o relatório Insight View da Iberinform.