Criação de Empresas na Região Centro: O caso de Coimbra

O que reter deste artigo:

  • O país cai, Coimbra cresce: A criação de empresas em Portugal desceu 3,0% até agosto de 2026, mas o distrito de Coimbra contrariou a tendência nacional e cresceu 2,3%.
  • Risco de crédito a aumentar: Embora os encerramentos gerais de empresas tenham caído (13,7%), as insolvências formais — aquelas que deixam dívidas a fornecedores — subiram 1,3%.
  • O perigo das médias: PMEs de Aveiro, Viseu ou Coimbra que planeiam os seus orçamentos e limites de crédito com base na “média nacional” arriscam-se a subestimar a concorrência local ou a ceder crédito a negócios em risco.

Quando analisamos a criação de empresas em Portugal entre janeiro e agosto de 2026 nasceram 36.124 novas empresas em Portugal, menos 3,0% do que no mesmo período de 2025, segundo o balanço mensal da Informa D&B, divulgado a 8 de setembro de 2026. É a continuação de uma tendência que já vinha a ser reportada ao longo do ano, com a criação de empresas a recuar de forma consistente em relação a 2025.

O detalhe que interessa a quem gere uma PME na região Centro não é esse número nacional, é o que acontece por baixo dele. Segundo a mesma fonte, apenas cinco distritos do país registaram crescimento na criação de empresas neste período, Santarém (+4,4%), Porto (+0,6%), Coimbra (+2,3%), Angra do Heroísmo (+21%) e Vila Real (+2,9%). Coimbra está, sozinho, nesse grupo restrito. Aveiro e Viseu não aparecem na lista de distritos em crescimento, o que sugere que seguem a tendência nacional de queda, ainda que a Informa D&B não divulgue o número exato para cada um destes dois distritos.

DistritoVariação na Criação de Empresas (Jan-Ago 2026)
Angra do Heroísmo+21,0%
Santarém+4,4%
Vila Real+2,9%
Coimbra+2,3%
Porto+0,6%
Média Nacional (Portugal)-3,0%
Tabela 1: Os únicos cinco distritos com crescimento na criação de novas empresas em 2026 face a 2025 (Fonte: Informa D&B).

Ou seja, na mesma região Centro, um distrito está a criar mais empresas do que há um ano, enquanto os outros dois, presumivelmente, estão a acompanhar a retração do país. Isto é o oposto de “a região Centro está a passar por isto ou por aquilo”, frase que aparece com frequência em conversas de café e em apresentações de estratégia que nunca chegam a abrir os dados por distrito.

O que isto custa a uma PME

O custo não é abstrato, é uma questão de decisão mal informada. Uma PME de Aveiro ou Viseu que planeie o orçamento de 2027 a partir da narrativa de “o país está a abrandar, mas nós seguimos os outros distritos vizinhos” corre o risco de subestimar a pressão real sobre o seu mercado local, já que Coimbra está, isolada, a crescer, o que normalmente atrai concorrência, talento e investimento de fora do distrito. E uma empresa em Coimbra que decida o seu plano de marketing ou de contratação a partir da média nacional de -3,0% arrisca-se a investir por defeito, precisamente quando o seu mercado local está, ao contrário do país, em expansão.

“A criação de empresas em Portugal caiu 3,0% entre janeiro e agosto de 2026, mas o distrito de Coimbra cresceu 2,3% no mesmo período, um dos apenas cinco distritos do país em crescimento.”

Fonte: Informa D&B, blog.informadb.pt, 8 de setembro de 2026.

O mesmo balanço da Informa D&B traz outro dado que reforça este ponto. Os encerramentos de empresas caíram 13,7% até agosto, 7.802 casos contra um número mais alto no ano anterior, o que à primeira vista parece boa notícia. Mas as insolvências formais, processos judiciais que normalmente deixam dívida por cobrar a fornecedores e prestadores de serviços, subiram 1,3% no mesmo período, 1.327 processos. Menos empresas fecham silenciosamente, sem deixar rasto, mas mais empresas acabam num processo formal que costuma arrastar consigo quem lhes vendeu ou prestou serviço a crédito. Para uma PME que fatura a 30 ou 60 dias a um cliente que acaba num destes processos, a diferença entre “fechou” e “insolvência formal” é, muitas vezes, a diferença entre recuperar parte do valor em dívida ou não recuperar nada.

Nenhum destes dois sinais, a criação de empresas por distrito ou o tipo de encerramento, aparece normalmente nas conversas sobre “como está a economia da região”. Aparecem, isso sim, em relatórios que a maior parte das PME nunca chega a abrir, porque partem do princípio, razoável à primeira vista, de que o distrito ao lado enfrenta os mesmos ventos.

O princípio geral

A região Centro não se comporta como um bloco único, e tratá-la como tal nas decisões de negócio tem um custo real, ainda que raramente apareça isolado numa linha de despesa. O princípio prático é simples de aplicar e não exige nenhuma ferramenta cara: antes de qualquer decisão de investimento, contratação, expansão ou orçamento de marketing que dependa de uma leitura sobre “como está o mercado”, vale a pena substituir a média nacional ou regional pelo indicador ao nível certo, o distrito, o concelho, ou mesmo o setor específico em que a empresa opera.

Uma pesquisa rápida em fontes como o INE, a Informa D&B ou os boletins da CCDR Centro custa menos de uma hora e evita decisões calibradas para uma economia que, no papel, existe, mas que na prática está a comportar-se de forma muito diferente consoante o código postal.

O mesmo vale para quem concede crédito comercial a clientes ou fornecedores da região. Saber que as insolvências formais estão a subir, mesmo com menos encerramentos totais, é motivo suficiente para rever prazos de pagamento e limites de crédito concedidos a clientes que operam em setores ou distritos onde esse sinal é mais forte, em vez de manter as mesmas condições comerciais de sempre por inércia.

Números como estes não substituem o conhecimento direto que qualquer gestor tem do seu mercado. Mas confirmam, ano após ano, que a região Centro é feita de várias economias diferentes a correr em paralelo, e que decidir olhando para o distrito certo, e não para a média confortável, continua a ser a diferença entre uma decisão bem informada e uma aposta.

A criação de novas empresas está a subir ou a descer em Portugal em 2026?

Está a descer. Entre janeiro e agosto de 2026 nasceram 36.124 novas empresas em Portugal, menos 3,0% do que no mesmo período de 2025, segundo a Informa D&B.

Todos os distritos da região Centro estão a acompanhar essa queda?

Não. Coimbra é um dos apenas cinco distritos do país onde a criação de empresas cresceu em 2026 (+2,3%), enquanto Aveiro e Viseu não constam da lista de distritos em crescimento divulgada pela Informa D&B.

Se há menos empresas a fechar, o risco para quem vende a crédito a outras empresas está a diminuir?

Não necessariamente. Os encerramentos totais caíram 13,7% até agosto de 2026, mas as insolvências formais, que normalmente deixam dívida por cobrar a fornecedores, subiram 1,3% no mesmo período.

Fonte: Informa D&B, blog.informadb.pt, 8 de setembro de 2026.