O crédito às empresas portuguesas está a subir há meses, e a maioria das PME nem percebeu bem quanto isso já lhe custou. Segundo dados do Banco de Portugal citados pelo Jornal Económico, a taxa de juro média dos novos empréstimos a sociedades não financeiras subiu pelo quarto mês consecutivo, passando de 3,53% em março de 2026 para 4,08% em junho, mais 0,55 pontos percentuais em três meses. Nos empréstimos até um milhão de euros, o segmento onde caem praticamente todos os créditos pedidos por PME, a taxa fica ainda mais alta, em 4,15%, contra 4,02% nos empréstimos acima de um milhão. As empresas maiores, portanto, continuam a pagar sistematicamente menos pelo mesmo tipo de dinheiro.
E a tendência não parou em junho. Em setembro de 2026, a Euribor a seis meses está perto dos 3%, ainda em subida, segundo o Idealista News, o índice que serve de referência a boa parte do crédito com taxa variável em Portugal. O que já se sabe de março a junho é, muito provavelmente, só uma parte do caminho.
O que isto custa, em euros
É fácil deixar passar meio ponto percentual como um detalhe técnico. Não é. Uma PME com um empréstimo de 50 mil euros paga, com a subida registada entre março e junho, mais 275 euros de juros por ano, só por causa desta variação. Numa linha de crédito de 100 mil euros, a conta sobe para 550 euros por ano. E isto sem contar com o efeito adicional de a própria empresa, por ser pequena, cair no escalão até um milhão de euros, onde a taxa é 0,13 pontos percentuais mais alta do que a praticada às empresas maiores, o que nos mesmos 100 mil euros representa mais 130 euros por ano, todos os anos, enquanto o crédito estiver em vigor.
Junte isto ao facto de que a maior parte das PME tem mais do que um crédito ativo (uma linha de tesouraria, um leasing de equipamento, um financiamento de obras ou de stock) e o valor total facilmente ultrapassa os mil euros anuais em juro extra, sem que nada tenha mudado na empresa em si. Não houve queda de vendas, não houve erro de gestão, é simplesmente o preço do dinheiro a subir à volta do negócio. E é dinheiro que sai diretamente da margem, porque raramente uma PME consegue repassar a subida da taxa de juro para o preço final ao cliente de um dia para o outro.
O problema mais sério não é o valor em si, é que a maioria das empresas só sente este custo quando olha para o extrato bancário no fim do ano, e nessa altura já não há nada a fazer quanto ao ano que passou.
Há um pormenor que torna isto ainda mais relevante, apesar da subida do preço do crédito, o volume de novo financiamento concedido a empresas em Portugal continuou a crescer no mesmo período, segundo os mesmos dados do Banco de Portugal. Ou seja, as PME não estão a pedir menos dinheiro por o crédito estar mais caro, estão a pedir a mesma quantidade, ou mais, e a pagar mais caro por isso, muitas vezes sem terem feito a conta a quanto mais exatamente.
O que fazer com isto
O princípio é simples, mas raramente é seguido, tratar a taxa de juro como uma variável de gestão ativa, não como um número que aparece na prestação e que se aceita sem questionar. Isso significa três coisas concretas.
Primeiro, saber exatamente quais dos créditos da empresa são a taxa variável e recalcular, com a taxa de hoje e não com a taxa do dia em que o contrato foi assinado, quanto isso representa no orçamento anual. Muitas PME continuam a planear tesouraria com números de há dois ou três anos.
Segundo, sempre que houver uma renovação de crédito ou uma nova necessidade de financiamento, comparar propostas de mais do que um banco na mesma semana, porque o preço do risco varia de instituição para instituição para o mesmo perfil de empresa, e vale a pena perguntar sobre linhas com garantia pública, por exemplo através do Banco Português de Fomento, que tendem a reduzir o prémio de risco cobrado a uma empresa pequena face a um crédito comum.
Terceiro, e mais importante, usar uma subida como esta como gatilho para rever preços e margens, não para a absorver em silêncio. Meio ponto percentual a mais em juro que ninguém repercute no preço é, na prática, um corte de margem que a empresa decidiu dar a si própria sem se aperceber. Um indicador simples, mensal, comparando o juro total pago este mês com o mesmo mês do ano anterior, chega para este alerta não passar despercebido.
Nenhuma PME controla o custo do dinheiro. Mas todas podem controlar se sabem, em tempo real, quanto esse custo está de facto a subir, e é essa diferença que separa quem é surpreendido pela conta no fim do ano de quem já a viu chegar em março.
Perguntas frequentes
Quanto subiu a taxa de juro do crédito às empresas em Portugal em 2026?
Subiu de 3,53% em março para 4,08% em junho de 2026, mais 0,55 pontos percentuais em três meses, o quarto mês consecutivo de subida, segundo o Banco de Portugal.
Porque é que as PME pagam juros mais altos do que as grandes empresas?
Porque a maioria dos créditos a PME cai no escalão até um milhão de euros, onde a taxa média era de 4,15% em junho de 2026, contra 4,02% nos empréstimos acima de um milhão.
O que pode uma PME fazer para reduzir o impacto da subida das taxas de juro?
Rever os créditos a taxa variável com os valores atuais, comparar propostas de vários bancos antes de renovar financiamento, considerar linhas com garantia pública, e rever preços e margens em vez de absorver a subida em silêncio.